2.11.07

 

A Entrevista Decepcionante




Estive há pouco a ver a entrevista da Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, na RTP1, convidada no programa de Judite de Sousa.

Confesso que já me enfada tanta conversa sobre a Educação que não há, sobre o Ensino que não se pratica, sobre o aproveitamento escolar que é medíocre, sobre a indisciplina que se vulgarizou e aumentou de gravidade e sobre um extenso rol de outras insuficiências de algo que nos custa caro, em dinheiro, no presente, e em capacidade diminuída, como Comunidade, no futuro.

Várias vezes, aqui mesmo, me ocupei deste tema, não como especialista, que não sou, nem nunca pretendi ser, mas como cidadão preocupado com o rumo da sua Polis, nesta matéria, há longos anos periclitante.

A Ministra aparenta firmeza e autoridade, mas esconde incompetência e demagogia. As explicações da Ministra sobre o famigerado Estatuto do Aluno, nova peça brilhante das iluminadas cabeças dos chamados peritos em Educação, que devem pulular lá pelo Ministério, não são nada convincentes.

Se estava bom, não precisaria de alterações, nem estas surgiriam apenas depois da contestação pública. Se as alterações se tornavam necessárias, não estaria bom, como qualquer mente desobnubilada consegue atingir. Creio, por conseguinte, que só cérebros ideologicamente enfeudados podem ter gostado da prestação da Ministra e da sua Política.

Afirma-se satisfeita com os resultados obtidos no último ano, que se traduzem por melhorias significativas - 11% ? - em Matemática e em Português, não especificando de que nível.

Diz que se reduziu já o abandono escolar, se aumentou a competência escolar dos alunos, se deu formação profissional a muita gente, que voltou, entretanto, à Escola e logrou o seu Diploma de Estudos, contribuindo para a melhoria geral da capacidade técnica dos Portugueses.

Que bom seria, se nisto pudéssemos acreditar, sabendo nós que trabalhar para as Estatísticas é bem diferente de melhorar seja o que for.

Depois de terem tolerado erros de ortografia e até de sintaxe, nas provas de Português do 9º ano, não admira que as taxas de aproveitamento tenham subido. Analogamente, baixando o grau de dificuldade das provas de Matemática e subindo o da tolerância classificativa, também se alcança maior êxito final. E se as estatísticas o confirmam, o desiderato estará atingido.

Para a Ministra, quem não engole estes argumentos, tem uma ideia deturpada da realidade, está de má fé ou possuído de uma visão catastrofista.

No final, ainda se saiu com um argumento de peso : as gerações actuais não sabem menos, sabem outras coisas, dominam outros saberes, sem distinguir os respectivos conteúdos desses saberes.

Deu, como exemplo, embevecida, o facto de os alunos actualmente saberem mais de informática e de inglês do que os de gerações anteriores. Coisa maravilhosa de se ouvir, ainda mais vinda de alguém que dirige a Educação de um País.

Partir do princípio de que utilizar uma ferramenta de trabalho mais evoluída, mais poderosa, que antes não existia ou tinha menos alcance, só por si equivale a maior capacidade do utilizador, é cair num logro infantil.

As ferramentas, os instrumentos ou utensílios de qualquer actividade são produtos da Tecnologia de uma dada época e apenas aumentam a possibilidade de intervenção dos seus utilizadores, sem com isso significar que tenham mais capacidade do que outros seus antecessores, que não dispuseram desses mesmos instrumentos. Não perceber isto é grave, sendo Ministra, é inadmissível.

Quanto ao Inglês, isto então é uma autêntica falácia, porque aqui há termos de comparação. Confrontem-se as provas de Inglês do Ensino Secundário das décadas anteriores, com as actuais, comparem-se os seus respectivos graus de dificuldade e depois tirem-se as conclusões quanto ao domínio do Inglês dos alunos de diferentes épocas.

Não poderemos comparar o conhecimento do Inglês entre os alunos do Ensino Primário, porque só há pouco tempo é que ele aí foi oficialmente introduzido. Como também não deveremos exultar com esse simples facto, porque o conteúdo da sua aprendizagem é muito modesto, não indo além de banalidades, do chamado vocabulário e frases de sobrevivência.

Enfim, esta entrevista revelou-se bastante desinteressante, mostrando uma Ministra determinada no erro e na ilusão.

Finge a Ministra ignorar a realidade do baixo aproveitamento escolar dos actuais estudantes dos vários graus de Ensino. Não cura do fraco saber adquirido de matérias fundamentais, como ler, com desembaraço, escrever, sem erros e com sentido, fazer contas simples, dominar as 4 operações da Aritmética, para depois progredir na Matemática, como nas restantes disciplinas do Ensino Secundário, para finalmente poder chegar à Universidade, se o mérito comprovado assim o justificar.

Esquece ou desatende o grave problema da disciplina no interior das Escolas, as faltas de respeito entre alunos e entre estes e os Professores, em muitos locais já insultados e agredidos, quase sempre de forma impune para os prevaricadores.

Neste ponto da disciplina ou da sua falta segue a orientação de uma sua correligionária, Ana Benavente, de seu nome, se a memória me não falha, que no tempo do facundo Guterres, o tal que tinha a paixão da Educação, lembremo-lo, nos perorou sobre a bondade das doutrinas permissivas, tolerantes, integradoras, absolutamente delirantes de falta de realismo, que tanto dano causaram ao nosso já muito desacreditado Sistema Educativo.

Evidentemente que, neste tema, a culpa não pertence apenas aos ditos socialistas, mas a todos os Partidos que têm assumido responsabilidades governativas, bem como aos que têm conseguido povoar a estrutura do Ministério com os seus industriados militantes.

De um modo geral, todos eles têm sido coniventes com a facilidade, a tolerância excessiva, a Estatística mistificadora de resultados, a produção incoerente de reformas, que desarticularam e desregularam todo o Sistema Educativo, com enorme prejuízo do Ensino Público, base fundamental da formação de qualquer Comunidade.

Deixar destruir ou permitir que se torne inoperante o Ensino Público de uma Comunidade, no caso, de uma Nação, é cometer contra ela um dos crimes mais nocivos que a há-de prejudicar, no presente e, sobretudo, no futuro, que ficará, por isso mesmo, seriamente comprometido.

Cumpre, pois, restaurar a credibilidade do Ensino Público, mas para isso é preciso cortar com os mitos, com os falsos princípios e com as fantasiosas doutrinas pedagógicas que no presente o dominam.

A tarefa é imensa, exige clarividência de espírito, esforço e determinação.

Seremos capazes de a executar ?

AV_Lisboa, 01 de Novembro de 2007

Comments:
Parece-me evidente que a finalidade de toda a actuação desta ministra (?), para lá da camuflar de forma despudorada e grosseira o insucesso escolar, é a de descredibilizar o ensino público de forma a desviar para o ensino privado os filhos de quem tem dinheiro para tal. E assim reduzir as despesas com a educação.
De resto, é o que está a acontecer em todos os ministérios. Em boa verdade, o Estado está a fechar as portas ao cidadão comum e a transferir as suas responsabilidades para o sector privado. Tudo dentro de uma lógica de que quem não tem dinheiro não tem vícios.
Justiça, educação, saúde e segurança, há muito que passaram a ser produtos de luxo só acessíveis aos ricos e poderosos (e aos boys do partido, bem entendido).
 
Enviar um comentário



<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?